Vamos deixar suja a bunda do rei!

Posição de comando não é nada fácil.
Dizem que uns nasceram para mandar e outros para obedecer. Por um lado eu não acho errado esse pensamento. Sua conotação o é. Obviamente que ainda precisamos de líderes: pessoas que organizam um determinado grupo.
O fato é que me incomoda demais as desigualdades. Eu particularmente me sinto péssima, para falar a verdade, quando tenho que ficar mandando. Me sinto a penúltima das criaturas que oprime a última das criaturas. Fico me perguntando porque devo mandar as pessoas fazerem isso ou aquilo, mesmo que seja a função delas fazê-lo. "E porque essa pessoa ganha tão pouco para fazer isso?" pergunto eu. E volto meus olhos ao imenso céu e agradeço a Deus pelas oportunidades que tenho.
Nesses dias de chuva estava carregando os móveis da minha casa, sozinha (materialmente, é claro, porque espiritualmente sempre estou acompanhada), e me ví na rua paralelamente num verdadeiro zigue zague com os lixeiros. Chovia, vocês entendem? Para mim, era uma aventura. Um dia de mudança. Um dia de chuva. Mais um dia sem rotina. Para eles? Não. Um dia igual. Mais um dia do cacete. Carregavam nossas merdas impressas no papel quase que de seda. Tive raiva de mim. Senti culpa. Porque era até divertido fazer a bosta da mudança num dia de chuva. Mesmo que sozinha. Para uma casa que nem comporta meu estilo de vida e conta bancária. Mas que Deus me permitiu nela morar. E que agradeço, obviamente. Mas me sinto um lixo. Vocês entendem?
É assim que me sinto mandando também. Infelizmente as pessoas que trabalham diretamente comigo não lerão o que estou escrevendo agora, mas gostaria de dizer a elas que sinto muito. Que sinto muito pela vida desgraçada. Que gostaria de tê-las como parceiras. Que não faço nada sozinha. Que preciso delas. Que valorizo profundamente o trabalho daqueles que carregam meus despojos diários. Que reciclo meu lixo para ajudar...
E pensando em tudo isso (pensando sempre), me lembrei de nossos antigos reis, em particular do nosso D. João, que muito fez pelo Brasil (bem ou mal fez), e que precisava naquela época de um servo para abaixar suas calças e de outro para limpar sua bunda. E também que toda essa desigualdade nossa é reflexo da maldita escravidão. E eu odeio pensar que fizemos isso com as pessoas que são iguais a nós, que podiam ser nossos filhos e que por terem a cor diferente foram tão judiadas.
Sinto tanta tristeza.
Porque tem que ser assim?
Se continuássemos com a Monarquia provavelmente teríamos reis que precisassem de pessoas para limpar suas bundas.
Hoje, muitos ainda querem pessoas que as sirvam.
Eu não quero!
Servir é ajudar a quem já não consegue mais.
Quero que a bunda do rei fique imunda!
Quero que ele aprenda a limpar a própria bunda.
Posso até ensiná-lo a se limpar, se for preciso.
E aí seremos parceiros. Porque ele faz e eu também faço.
E se eu também não souber fazer, quero alguém que me ensine, não que faça por mim.
E se houver algo que precisarmos fazer juntos será melhor ainda.
Juliana Tura

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