Das últimas peças assistidas.



Meus dois últimos finais de semana, no quesito lazer, foram dedicados a assistir duas peças de teatro que eu estava com muita vontade de ver. Uma delas me causou como sempre sinceras admirações. Uma peça simples, delicada e profunda que exerce sobre nós uma enorme compaixão pela vida desgraçada de um cara "condenado" a marginalidade. Ah, foi bonito de ver. Pela construção cênica, pela história e pelo trabalho dos atores. É, nessa a crítica acertou. Publicou boas notícias sobre a peça, sobre o lirismo contido nela... enfim. Dá pra acreditar nos comentários.

Por outro lado, a última peça que assisti fui pela crítica e me dei bem mal. A começar pelo preço que diziam ser um e na hora foi outro. Mas decidi encarar. Já que a peça estava sendo tão bem falada. E não era nada de teatro "comercial" não, grupo "engajado" e tal. Mas vamos lá. Não vou colocar o nome do grupo aqui, só quero fazer umas colocações, pois há algum tempo venho seguindo o trabalho deles. Não quero criticá-los, quero somente pegá-los como exemplo daquilo que alguns grupos teatrais vem fazendo ao longo de suas montagens e que se torna indigesto pra mim.

Quando um grupo decide fazer uma montagem certamente ele está querendo dizer algo. E o que eu venho percebendo em alguns grupos renomados é que em algumas de suas montagens, pra não dizer todas, há um certo exagero em usar determinadas metáforas ou truques ou símbolos ou sei lá como chamar, para se mostrarem "engajados". Outra coisa que me incomoda profundamente também é a banalização com que abordam a sexualidade. Tanto no teatro "comercial" como no teatro "não comercial" (vou chamar assim), falar de sexo por um lado é atrair os endinheirados e por outro lado uma maneira de transgredir com as regras. Num, as senhouras de chapéus irão para ver um corpo sarado e no outro irão aqueles que se deliciam com a "orgia" vestida de branco. E engraçado é que esses dois tipos de público nunca se encontram. Porque.

Como o meu foco não é o teatro "comercial" (deixo isso para os colunistas) e sim o teatro "não comercial", por pensar que se faz necessário fazer um teatro inteligente (que pode ser engraçado, que pode ser pra entreter, pra denunciar, pra pensar, pra chorar...), quero deixar aqui minhas interrogações sobre esse teatro que estou vendo e que pela crítica vai de vento em poupa.

Porque eu devo sair da minha casa para assistir uma peça que gera em mim sentimentos negativos?

Porque eu vou assistir uma peça em que o microfone por inúmeras vezes se transforma numa "rola" sem necessidade alguma?

Porque eu vou assistir essa e outras peças que tratam o sexo como uma ida ao mercado; que apontam o dedo na minha cara dizendo que eu sou uma bosta; que fazem eu bocejar; que incentivam as vaidades que há em mim quando deveriam...

Porque?

Porque?

Porque?

Pensei no Teatro como Arte.

Pensei que os artistas fossem seres enviados por Deus para nos mostrar uma realidade diferente da que a gente vive.

Pensei que esses mesmos deuses-artistas pudessem ajudar àqueles que não vêem a luz a pelo menos enxergar uma brecha a iluminar-lhes o caminho.

Pensei tanta coisa.

Enfim, a única coisa que eu tenho certeza é que pela crítica eu não vou nunca mais.
Juliana Tura



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