Déjà Vu = já vi isso antes


De dentro de uma caixa ela observava atentamente os pés que passavam
Do buraco via apenas pés
Uns rastejavam, outros saltitavam
Uns estavam descalçados, outros semi-nus ou protegidos
Havia uma singularidade em cada pé
Alguns passavam
Outros paravam

Ela então, passou a brincar: - Vou escolher o que mais me agrada!
Nada mais via, apenas os pés
O buraco da caixa era pequeno
Apenas um olho podia ver

No início da brincadeira ia apenas pela aparência
Gostava dos pés protegidos
Gostava das botas, dos tênis, das meias coloridas
Dos pés protegidos que rápido passavam
Eram pés ocupados, acelerados
Pés seguros e determinados
Que não paravam em lugar nenhum

Cansou de tanto esperar
Os pés escolhidos iam e não voltavam
E quando voltavam passavam rápidos demais

Passou então a perceber os pés semi-nus
Gostou das sandálias, chinelos e outros estilos
Também das andadas
Algumas passadas pareciam desgovernadas
Era até engraçado
Chegou a se interessar por uma papete
Que ia e voltava descompromissada
Vez ou outra parecia acompanhada de uma sandália
Mas o buraco da caixa era pequeno
Ela não via direito
Se encantou pela papete
Tanto que deixou de perceber os pés que passavam
Até que um dia a papete não passou mais

E novamente se viu sozinha
Dentro da caixa
E a caixa já estava ficando apertada

Sem desistir
Passou a devorar com os olhos todos os pés que passavam
Escolhia e brincava que qualquer pé era pé
Se passava, ficava, pulava ou andava
Se vestido ou maltrapilho
Era pé e pronto

Até que certo dia
Foi pisoteada por um bruto pé que passava
Chorou!
E ficou a se perguntar: - Porque me pisar?
E chorou!

E pelo buraco da caixa apertada
Não olhava mais os pés que passavam
Não fazia mais sentido aquela brincadeira
E dia após dia se contentava
Com a caixa apertada
E não mais se importava com os pés que passavam

Estava feliz
Porque aprendia a ficar sozinha
Dentro da caixa
E foi assim que fez

Até que um dia ao acordar
Sentiu algo na caixa roçar
Era um pé
Sim um pé
Já havia visto aquele pé passar
Mas agora o pé estava nu
Como ela observava muito os pés
Já havia notado esse também
E aquele já havia passado a sua frente
Protegido, com sandália e também dando-lhe um esbarrão na caixa

Convicta em sua caixa
Ela não mais se importava
Apenas dava uma olhada pelo buraco
Porque aquele pé insistia todo dia
A passar e parar

Era um pé descalçado, nu
Ela achava seu formato bonito, forte
Parecia meigo para ela
E ela se perguntava porque ele parava

Ficou intrigada
Passou a observar que o pé ficava
Ele passava, parava e não ia embora
As vezes roçava-se na caixa
Como que pedindo para ela olhar pelo buraco
E ela olhava, com medo, mais olhava

O pé passou a vigiá-la, guardá-la
E ela começou a ver aquele pé
Diferente dos pés que passavam
E ao olhá-lo
O via diferente dos outros pés
Ele estava nu
E decidiu não mais brincar
Nem tampouco se fechar
Apenas ainda está dentro da caixa
Protegida
Olhando pelo buraco aquele pé
Que tanto a assusta
Que tanto ela deseja
Mas que ainda é um pé como outro qualquer
E ela decidira que somente sairá da caixa
Ao encontrar um pé nu, descalçado
Que queira com ela dar os mesmos passos.

Juliana Tura

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