Gentilezas

Permita-me.

...

Óh, sim. Como a senhora é gentil.

Obrigada. Gentileza a sua.

Óh, como és bela.

Verdade? Nem havia percebido.

Sim, sim. És bela, delicada, linda para ser bem exato.

Ah, como o senhor é delicado.

Não incomoda-se se a chamar pra dançar?

Porque me incomodaria? O senhor é tão cordato. Aceito, sim.

...

Posso encontrá-la novamente?

Sim.

Pois então, está combinado.

Pois bem.


...


Madame, houve um imprevisto. Desejaria muito ter a sua presença junto a minha, mas infelizmente houve um imprevisto. Sim, um imprevisto inadiável, e por isso precisarei me ausentar de vossa companhia. Peço mil perdões. Gostaria de tê-la ao meu lado. Somente para que pudessemos trocar ao menos algumas palavras, mas...

Oh, não se preocupe. O senhor, tão gentil.

Mil perdões.

Não se acanhe. Haveria outra oportunidade, caso eu realmente acreditasse em tanta gentileza. Mas como sou uma madame de tão boas maneiras prefiro recolher-me em meus aposentos, para refletir um pouco. Peço que não me incomodeis com vosso falatório. Não sou do tipo de madame que acredita em tanto palratório.

Mas, eu. gostaria..

Aliás, perdão senhor, não havia percebido o quão o senhor é gentil com todas as madames, igualmente. E também não havia percebido que vossa idade, se me permite, não lhe trouxe sabedoria para com o trato com as madames.

Senhora, deixe-me...

Senhor, já pedi-lhe que não me incomodasse com vossos assuntos sem propósito. Já houve, e sempre há de haver, "cavalheiros" que tentem gozar de minhas particulariedades. E se me permites, mais uma vez, gostaria de dizer-lhe que é necessário muita altivez para ter-me, pois além de madame sou daquelas que preza muito a inteligência e sabedoria varonil. O que um homem realmente deveria ter.

Senhora, não tive a intenção...


...


Um minuto, sim.


...


Senhor, não pretendo contrariá-lo. Gostaria até de desejar-lhe felicidades. E porventura, não parecer-lhe senhoura demais, ou até mesmo, parecer-lhe daquelas donzelas puras demais. Assim não sou, senhor. Sim, sou madame, mas daquelas que não gracejam ao menor traço de gentileza. Se me perdoa dizer, também sei apreciar os dotes masculinos que se me apresentam e que não me faltam, graças ao bom Deus. Também tenho ciência daquilo que agrada a cobiça masculina e que eu, com o perdão, tenho de sobra.

Desculpe-me, senhora.

Não quero vossa desculpa, senhor. Gostaria, por gentileza, que por mim ou por alguma madame, tu tivestes o mínimo de respeito, pois não importa que comigo estejas, importa sim, tu tratardes uma madame que ao compreenderes tu, tu a compreeendas também.

Ouça-me, por favor.

Diga, já que isto lhe faz bem.

Dê-me uma nova chance. Caso eu haja feito-lhe algum mal, gostaria, se me permite, ter mais uma oportunidade, para redimir-me.

O que dizes? O que queres tu de mim?

Quero poder vê-la novamente. E dentro dos conformes. Assim como a senhoura diz-me. Desfrutar de vossa companhia, tão agradável a meus olhos. Convido-a novamente para um passeio. Aceite, pois, esse pedido, o faço de coração.

Ah, sim. E porque deveria crer que isso sejas verdade, se vossos atos não condizem com vossa falas?

Madame, peço-lhe que não sejas tão rigorosa em vossos julgamentos. Acaso achas que estou aqui a brincar? Já não vos expliquei o ocorrido?

Sim. Então, para que eu não pareças assim tão severa, permito-lhe buscar-me amanhã. Devo ausentar-me neste momento. Uma dor de cabeça perturba-me desde o nascer do sol.

Sim, claro. Espero que amanhã, ao vê-la, estejas sem tal enfermidade.

Passar bem, senhor.

Passar bem, minha bela senhoura.

...

Madame?

Sim.

Não poderei vê-la novamente.

Que diz? Perdão, não pude escutar.

Sim, permaneci atolado em compromissos mil. Não ocorreu-me um segundo de folga sequer para poder avisá-la. Importa-se, novamente?

Não, senhor.

Não?

Não.

Porque não importa-se? Não irá lamentar-se? Praguejar, talvez?

Imagine. Ache graça.

Porque desdenha, madame?

Não desdenho, senhor. Apenas não me importo.

Mas, em nossa última conversa pareceu que...

Um momento, senhor. Acaso achas que em nossa última conversa referia-me somente a ti?

Assim pareceu.

Disse-lhe o que pensava. Somente isso.

Não entendo.

Senhor, não posso importar-me com vossas escolhas. Acaso foi eu quem o procurou? Porventura disse-lhe que desejava ardentemente vê-lo? Pedi-lhe que me procurasse? Não, senhor. Assim não o fiz. Foi o senhor quem o fez, e não somente uma vez. Penso que se uma madame como eu não está entre vossas primazias, o senhor há de encontrar uma madame que o aceite assim. Para mim o senhor não serve.

Não sirvo. Essa é boa. Não sirvo.

Senhor, seja um cavalheiro e permita-me desfrutar de vossa amizade. Peço-lhe que não tentes nada além disso. Do contrário, terei novamente que privá-lo da minha companhia, por definitivo.

Estou estupefato!

Por ter encontrado uma madame que se difere das que estás acostumado, não?

Talvez.

Não se aborreça. Há de divertir-se com donzelas mil. Trate-as com os cuidados devidos e não há de se aborrecer com balelas. Uma delas compreenderá melhor o senhor do que eu. Agora, se me permite devo ir.

...

Senhoura?

Madame?

Porque não atende?

...

Juliana Tura


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